Não faz muito tempo, a tatuagem era associada a personagens alternativos, como estrelas do rock, ou a estereótipos do submundo. A indústria do cinema, em particular Hollywood, teve papel fundamental em criar bad boys temidos – e tatuados. Um dos maiores foi, sem dúvida, Robert de Niro como o psicopata Max Cady, em Cabo do Medo (1991), de Martin Scorsese. Suas marcas tinham ligação direta com os crimes que havia cometido: em seu peito, um coração partido com o nome "Loretta", o amor de Max que ele próprio retalhou em 52 pedaços.
Por mais estranho que pareça, a origem da tatuagem, no entanto, tem sangue azul.
Reis, princesas e gente da aristocracia decoravam seus corpos com
desenhos, fazendo dessas marcas moda nos séculos 18 e 19. Entre os
precursores estava o Rei Eduardo VII da Inglaterra – com uma cruz de
malta, uma âncora e um dragão tatuados nos braços –, o Duque de York, a
princesa Alexandra da Dinamarca e czares russos, como Nicolau II. Esse
passado nobre é resgatado no livro "Forever: The New Tattoo", do americano Nick Schonberger, recém-lançado nos Estados Unidos e Europa pela editora alemã Gestalten. Na publicação, Schonberger vai além dos fatos históricos e elege alguns dos principais tatuadores ao redor do mundo que compõem a nova vanguarda do gênero.
"O que os profissionais apresentados no livro têm em comum é, acima de
tudo, a excelência na arte do desenho e a formação artística",
explica o autor. "Todos eles são extremamente inovadores e trabalham com
ilustrações autorais, sem esquecer a história da tatuagem." E
acrescenta: "Nenhum deles é mainstream: ser tatuador de massa significa quase perder sua personalidade".
Nascido no estado de Connecticut, nos Estados Unidos, Schonberger, 33 anos, especializou-se na história da tatuagem na Universidade de Wisconsin,
com ênfase nos anos de 1870 a 1920. Este foi um período crucial para o
estabelecimento da indústria da tatuagem na Europa e nos Estados Unidos.
Entre os motivos, está a abertura do primeiro estúdio de tatuagem, em
1870, em Nova York, e a invenção da maquina elétrica de tatuar pelo
inglês Samuel O’Reilly, em 1891. "Na minha vida, ela apareceu quando
tinha 13 anos e vi, pela primeira vez, uma pessoa tatuada", conta
Schonberger. "O interesse por esse universo foi imediato. Isso
aconteceu logo que comecei a praticar snowboard, uma tribo que costuma
ter muitas tattoos, como a dos skatistas e surfistas."
O termo "tattoo", aliás, passou a ser adotado no fim do século 18,
quando o navegador britânico James Cook desembarcou nas ilhas da
Polinésia, no Pacífico. Em seu diário de bordo, o marinheiro registrou o
costume do povo local de pintar o corpo: "Homens e mulheres
injetam um pigmento preto na pele, usando finas espinhas de peixe, de
tal modo que o traço não possa ser apagado. Chamam isso de tatau".
A palavra taitiana era a reprodução do som feito durante a execução da
tatuagem. O nome pegou e a prática passou a se espalhar entre os
navegadores. Figuras de sereias, âncoras, dragões e caravelas – bem
diferentes dos traços da realeza, claro – viraram moda não só entre
marinheiros, mas também entre os que viviam em zonas portuárias, como
prostitutas e operários. Na Europa, artistas começaram a ganhar dinheiro
como tatuadores a partir da segunda metade do século 19 – como o inglês
Sutherland Macdonald, desenhista oficial do Rei Eduardo VII.
No Brasil, a moda demorou a pegar e permaneceu marginalizada até meados
da década de 60. A cena começou a mudar em 1959, quando desembarcou no
Porto de Santos o ex-marinheiro dinamarquês Knud Harald Lykke Gregersen
(1928-1983). Conhecido como Lucky Tattoo, Knud nasceu em Copenhague e tinha a tatuagem no sangue:
seu pai, Jens, era um tatuador de fama internacional nos anos 30 e 40.
Meses após sua chegada, Lucky Tattoo já era o nome mais concorrido do
litoral paulista. Poucos anos depois, com a explosão do rock nos Estados
Unidos – encabeçada pelos tatuados Janis Joplin e Jim Morrison –, ele
se estabeleceu de vez. Surfistas foram os primeiros a procurá-lo. Entre eles, José Artur Machado, o Petit, inspiração da música Menino do Rio, de Caetano Veloso,
em que o cantor exaltava seu "dragão tatuado no braço". Os desenhos que
fizeram Lucky famoso eram clássicos da tatuagem, a chamada Old School,
com forte apelo da estética dos anos 40, marinheiros da 2a Guerra e
pin-ups. Uma releitura dessa escola, com uma vertente mais autoral, é o
foco dos autores presentes no livro "Forever: The New Tattoo".
Também é uma das preferidas do carioca Daniel Tucci, tatuador mais badalado do Brasil. É ele o responsável pelos desenhos de Luana Piovani, Cléo Pires, Marcelo D2 e Falcão, além da mais nova tatuagem de Lady Gaga. A cantora foi até seu estúdio em novembro passado, quando esteve na cidade para a turnê Born This Way Ball. "Ela me disse que queria escrever a palavra ‘Rio’ com a estética de tatuagem de cadeia. Para ele, os eleitos do
livro de Schonberger "são artistas que fazem verdadeiras obras de arte
na pele e fora dela. Muitos pintam telas, esculturas... enfim, são
artistas completos, não só da tatuagem". Uma das pioneiras na parceria
das artes plásticas com a tatuagem foi a americana Ruth Marten, hoje com
63 anos. Ainda em atividade – é considerada uma das melhores do mundo
–, transformou seu trabalho em performance durante a 10a Bienal de
Paris, em 1970, quando fez uma sessão de tatuagem no Museu de Arte
Moderna. Aqui no Brasil, a dupla de paulistanos Fernanda Brum e Arthur
de Camargo, do estúdio Analogic Love, é um bom exemplo de como a
tatuagem conseguiu encontrar outros suportes além da pele. O casal cria linhas exclusivas de móveis "tatuados" e já produziu uma linha de mesas para a sofisticada loja MiCasa. Fez bastante sucesso. A coleção foi totalmente vendida em pouquíssimo tempo.
Filho de um artista plástico, o tatuador francês sempre foi fascinado por obras de Picasso e filmes de animação. Desde pequeno, devorava livros e histórias em quadrinhos, uma de suas grandes influências. "Não era bom aluno, então, meus pais decidiram me inscrever em uma escola de arte aos 15 anos. Foi um divisor de águas", conta Black. Ele chegou a estudar Artes Plásticas, mas deixou a faculdade para se dedicar às agulhas. Seu estilo autoral começou a florescer quando deixou os tribais de lado. Com um traço ligeiramente infantil, Black costuma tatuar homens e mulheres – atende apenas um cliente por dia – na faixa de 30 e 40 anos, muitos deles designers gráficos. Hoje vive entre Montreal, onde mora e tem um estúdio, e Paris, onde realiza muitos trabalhos também autorais, mas fora da pele, como capas de discos e logomarcas para grifes. www.yourmeatismine.com
Artista plástica e tatuadora desde 1998, Amanda cria verdadeiros quadros contemporâneos em pessoas. Até o efeito das cerdas do pincel e imperfeições da pintura, como pingos de tinta, são reproduzidos nos desenhos. "Quero expandir a noção que as pessoas têm sobre o que é a tatuagem. Não acredito que ela tenha que estar limitada à pele humana", diz a nova-iorquina. Quando não está tatuando em seu estúdio, no Brooklyn, dedica-se à pintura em telas e em materiais naturais, como couro e frutas. "Uma das primeiras superfícies que tatuei na vida foi a de uma laranja. Desenhei muito em frutas antes de colocar a agulha na pele de alguém", conta. Já teve suas obras expostas em muitas galerias de arte nos Estados Unidos, além de ter participado de coletivas em lugares como Canadá e Cidade do México. www.amandawachob.com
MIKE GIANT: desenhos inspirados no grafite e mulheres tatuadas.
O grafiteiro Mike Giant se inspirou no trabalho que desenvolvia em murais de ruas de cidades americanas para ingressar no universo da tatuagem. De Nova York, cidade onde nasceu, resgatou influências da cultura hipster. Do Novo México, onde cresceu, buscou elementos do povo mexicano. "Crescer em Albuquerque me trouxe várias referências. Vi muitos artistas tatuarem mexicanos e latinos nos mercados de pulgas da cidade, são imagens que guardo até hoje", conta. O passado como designer gráfico e ilustrador também o ajudou na hora de desenvolver um trabalho mais autoral na pele e na moda. Além do estúdio, Giant é dono da grife Rebel8, popular entre grafiteiros e artistas do gênero. Sua obsessão? "Mulheres tatuadas", diz. Por isso, é comum encontrar, tanto nas telas que pinta como nas estampas da Rebel8, desenhos de lindas mulheres com tatuagens pelo corpo. www.mikegiant.com
O grafiteiro Mike Giant se inspirou no trabalho que desenvolvia em murais de ruas de cidades americanas para ingressar no universo da tatuagem. De Nova York, cidade onde nasceu, resgatou influências da cultura hipster. Do Novo México, onde cresceu, buscou elementos do povo mexicano. "Crescer em Albuquerque me trouxe várias referências. Vi muitos artistas tatuarem mexicanos e latinos nos mercados de pulgas da cidade, são imagens que guardo até hoje", conta. O passado como designer gráfico e ilustrador também o ajudou na hora de desenvolver um trabalho mais autoral na pele e na moda. Além do estúdio, Giant é dono da grife Rebel8, popular entre grafiteiros e artistas do gênero. Sua obsessão? "Mulheres tatuadas", diz. Por isso, é comum encontrar, tanto nas telas que pinta como nas estampas da Rebel8, desenhos de lindas mulheres com tatuagens pelo corpo. www.mikegiant.com
SCOTT CAMPBELL: conhecido pela releitura de objetos do universo pop.
Em 2005, o ator Heath Ledger abriu a porta do estúdio de Scott Campbell, em Nova York, e lhe pediu uma tatuagem. O desenho, um objeto elíptico abstrato, ficou tão popular que o tatuador americano caiu nas graças de celebridades como Courtney Love e Marc Jacobs, que o levou para o time de colaboradores da Louis Vuitton. Ele é capaz de criar traços psicodélicos para um cliente e reproduzir um retrato de Michael Jackson para outro. Hoje, Campbell expõe seus trabalhos em galerias ao redor do mundo, mas com o México tem uma relação especial: passou meses documentando técnicas de tatuagem no sistema penitenciário de segurança máxima do país. www.scottcampbellstudio.com
Em 2005, o ator Heath Ledger abriu a porta do estúdio de Scott Campbell, em Nova York, e lhe pediu uma tatuagem. O desenho, um objeto elíptico abstrato, ficou tão popular que o tatuador americano caiu nas graças de celebridades como Courtney Love e Marc Jacobs, que o levou para o time de colaboradores da Louis Vuitton. Ele é capaz de criar traços psicodélicos para um cliente e reproduzir um retrato de Michael Jackson para outro. Hoje, Campbell expõe seus trabalhos em galerias ao redor do mundo, mas com o México tem uma relação especial: passou meses documentando técnicas de tatuagem no sistema penitenciário de segurança máxima do país. www.scottcampbellstudio.com
Fonte:MarieClaire
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